sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

DELÍRIOS


Vem…

O mar espera-nos,

numa mansidão de lua reluzente.

O corpo aguarda-te com inclemência,

Amanhece solarengo nos teus dedos

Quando me tocas sofregamente,

numa expressividade silenciosa.

Vem…

O coração nunca mente…!

Estou carenciada do teu cheiro!

Irremediavelmente dividida ao meio.

Metade de mim nem sabe,

A razão deste desassossego.

Vem...

Sente-me em silêncio, não tenhas medo!

Sê luz que refulge com teimosia

Nos corpos lânguidos de poesia,

Que percorrem quietos, o mundo

Dos sonhos!

Vem…

Em metamorfoses que calam os sentidos

Com o mesmo despudor,

Com que te aproprias de mim,

Numa dança descompassada

Que me obriga à entrega…!

Ah…
Entrego-me, assim...apaixonada!

Vem…

Não te ausentes…!

Apaga-me os gemidos, revê-te em mim

Como se fosses vela que me incendeia

Que se reacende mesmo quando a apagas.


Vóny Ferreira

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

IMPUDOR



Trinca o meu corpo
devora-o
como se fosses um canibal
a saciar com avidez
a sua horripilante fome.

Come-me…
ah, não hesites!

Talvez eu seja uma toranja
a flor que o meu ventre fecha
para que a regues
com a tua gula salivada.

Não demores…
come-me
enquanto me sinto viva!

(VÓNY FERREIRA)

domingo, 1 de Novembro de 2009

Poema escrito e lido por: VÓNY FERREIRA

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

A tua ausência


As madrugadas repousam

nos rios secos da calçada

onde os teus passos ecoam

em murmúrios suavizantes.


Solta-se desse mar prometido

a saudade… a jusante

numa ondulação de penas

que me deixa asfixiada.


As noites frias agasalham

essa ausência ressonante

com grinaldas de nevoeiro

botões dourados de estrelas

que se soltaram dos teus olhos.


Ah… meu amor, eterno…

do outro lado da rua

espreita a noite mais sombria

os telhados húmidos da insónia

onde me abrigo por teimosia.

(VÓNY FERREIRA)

domingo, 25 de Outubro de 2009

SÓ PORQUE...





Transformei uma pedra de xisto em diamante,
só porque gosto das flores que nascem no meio das pedras e que resistem à fúria dos ventos e intempéries.
Só porque as minhas mãos dormentes teimam
em acordar os sonhos que hibernam nos olhares absortos, como o teu... a descrever a serenidade das planícies!
Iluminei escuridões com tochas e vi o perdão ajoelhar-se num lamaçal de contradições. A pedir justificações às irracionalidades da vida…!
Só porque não fui capaz de te explicar, que o silêncio é uma ferida que gangrena e magoa mais do que todas as palavras sentidas.

(VÓNY FERREIRA)

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

JURO-TE... (carta nº6)



De olhos fechados apercebo-me que te abeiras teimosamente do pensamento.Num desespero de formiga com pressa,tento fechar essa janela onde me espreitas, com os teus olhos de falcão desnorteado. Faço correr as cortinas onde esbarras cegamente em voos de beija-flor cansado do deserto da espera… e espero que a noite adormeça a minha insónia.
Mas não…a minha vontade é abalroada pelo meu coração que insiste em perpetuar-te na confusão dos meus dilemas. Ah… que pena tenho de não ser capaz de te transformar em giz para ter o prazer de te apagar decidida, do quadro negro onde te encontro e te amo.
E te esqueço
E te lembro
E te choro
E te rio
E te odeio…
E te rejeito
Juro-te…!
Acompanho o descompassado aceleramento do coração, ao pensar em ti… e canso-me do minha exaustiva luta. Uma vez mais vejo-te derrapar no meu corpo anestesiado, como se de repente te transformasses num veículo desarvorado a contornar as rotundas do meu coração. Despedaças-me em mil cacos e eis que me vejo condenada a juntar todos os pedacinhos para renascer na minha determinação em te esquecer.
Já gritei, mil vezes, que não quero ver-te a entrar na minha vida. Não transformes o meu não em sim…por mais que ele tenha a leveza de uma brisa.
Deixa-me só com os meus ocasos e manhãs despidas de esperanças renovadas. Não sei se te amo ou se necessito de ti… não sei!
Sei que és tudo quanto não precisava agora… isso eu sei! Por isso me vou lembrando nas horas em que o sono acorda nos meus olhos. Nas horas em que os grilos só cantam para adormecer as folhas grávidas de orvalho. É nas minhas lágrimas que eu te reconstruo e te mato. É… pois é…!
E sabes?
Os jardins da minha casa são regados com chuvas ácidas, com sois intranquilos que desmaiam nas pétalas de todas as flores que já esqueceram como sorrir. Mas é nesse jardim que eu busco a definição para a tranquilidade das minhas enervantes rotinas.
- Percebes?
Deixa que as eras que cobrem os muros que me acercam, sedimentem o musgo fresco onde plantei o único coqueiro que espreita o céu de cima de uma vedação envidraçada.
Só lá de cima desse coqueiro desajustado, eu te poderei sorrir no meio das minhas lágrimas e rejeições acetinadas.

(VÓNY FERREIRA)
NOTA: - Todos os meus poemas, contos e prosas estão registados na SOCIEDADE PORTUGUESA DE AUTORES e IGAC / Último registo em Fevereiro 2009