Abro as janelas do peito. Estranhamente uma dor aguda penetra-o. Sinto-me asfixiar.
...Não sei que nome lhe chame!
- Serão saudades da infância? Como se não me lembro de ter sido criança? Os sapatos sempre foram maiores que os meus pés e as noites demasiado frias para que contasse as estrelas com o meu reduzido postigo aberto, sem me pôr a tremelicar. No limiar da pobreza, atrevia-me a ser a princesa sem castelo, que atravessava os prados verdes junto à igreja de S. José em Coimbra, com a mesma ansiedade de um cego que se põe a imaginar o que o rodeia.
Não sei porquê mas assalta-me uma estranha vontade de regredir no tempo. De voltar a ser a menina que vivia (in)feliz. A cumplicidade que tive sempre com a natureza já na altura era congénita. Penso hoje com uma clareza pouco iluminada que as poucas vezes que ri em criança, foram todas aquelas em que me punha a rebolar pela relva molhada quando o sol se atrevia a fumegar frio entre os pingos de água que permaneciam nas flores silvestres e no capim agreste. Tal como hoje tenho instantes de pânico ao deparar com o cheiro acre que paira sobre a cidade. O barulho sincronizado dos carros, enquanto permaneço com a porta da varanda aberta é insuportável, o cheiro que paira no ar irrespirável.
Falta-me o uivar caprichoso do vento sobre o milheiral, sobre as ameixoeiras em flor do quintal.
A Primavera anda esquiva da minha memória decomposta. Enrosca-se invariavelmente ao cinzentismo das nuvens que percorrem o céu da minha alma peregrina, numa procissão sem velas. O tempo parece andar ainda mais confuso do que eu…
Como se ouvisse um violino esgueirar-se por entre os dedos do vento ouço agora na minha mente o trinar das guitarras de Coimbra à laia de enxaqueca.
… Não… não sei que nome lhe chame!
- Só a memória do cheiro de alecrim salva este desespero repentino
Vóny Ferreira
...Não sei que nome lhe chame!
- Serão saudades da infância? Como se não me lembro de ter sido criança? Os sapatos sempre foram maiores que os meus pés e as noites demasiado frias para que contasse as estrelas com o meu reduzido postigo aberto, sem me pôr a tremelicar. No limiar da pobreza, atrevia-me a ser a princesa sem castelo, que atravessava os prados verdes junto à igreja de S. José em Coimbra, com a mesma ansiedade de um cego que se põe a imaginar o que o rodeia.
Não sei porquê mas assalta-me uma estranha vontade de regredir no tempo. De voltar a ser a menina que vivia (in)feliz. A cumplicidade que tive sempre com a natureza já na altura era congénita. Penso hoje com uma clareza pouco iluminada que as poucas vezes que ri em criança, foram todas aquelas em que me punha a rebolar pela relva molhada quando o sol se atrevia a fumegar frio entre os pingos de água que permaneciam nas flores silvestres e no capim agreste. Tal como hoje tenho instantes de pânico ao deparar com o cheiro acre que paira sobre a cidade. O barulho sincronizado dos carros, enquanto permaneço com a porta da varanda aberta é insuportável, o cheiro que paira no ar irrespirável.
Falta-me o uivar caprichoso do vento sobre o milheiral, sobre as ameixoeiras em flor do quintal.
A Primavera anda esquiva da minha memória decomposta. Enrosca-se invariavelmente ao cinzentismo das nuvens que percorrem o céu da minha alma peregrina, numa procissão sem velas. O tempo parece andar ainda mais confuso do que eu…
Como se ouvisse um violino esgueirar-se por entre os dedos do vento ouço agora na minha mente o trinar das guitarras de Coimbra à laia de enxaqueca.
… Não… não sei que nome lhe chame!
- Só a memória do cheiro de alecrim salva este desespero repentino
Vóny Ferreira

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